‘Ainda vivo um furacão’, diz mulher que passou 22 dias entubada com Covid-19 e perdeu mãe e pai em menos de 15 dias

“Eu não vivi um furacão, eu ainda vivo. A força que eu tenho, só posso dizer que vem de Deus. Se perder um dos pais é uma dor imensurável, imagine perder os dois, em menos de 15 dias. Costumo dizer que virei órfã. Fico pensando no Dia dos Pais, que vai ser o primeiro sem o meu. Mas foi Deus que quis assim. Eu sabia que eles iam ficar com sequelas se tivessem sobrevivido”.

O depoimento é da analista de contas médicas Wedja Santos, que, aos 42 anos, perdeu o pai e a mãe, Marly Santos e José Irinaldo, para a Covid-19, depois de passar 36 dias internada, sendo 22 deles entubada devido ao novo coronavírus.

Marly Santos e José Irinaldo foram casados por 46 anos. Ela morreu com 69 anos e ele, com 67. Eles se conheceram em São Joaquim do Monte, cidade natal dos dois, localizada no Agreste de Pernambuco, e depois de casados se mudaram para o Recife.

A passagem da pandemia pela residência de Wedja foi marcada por uma série de desencontros. Ela sentiu os primeiros sintomas no dia 13 de abril, quando foi socorrida pela primeira vez. No hospital, o médico a mandou de volta para casa e, sete dias depois, ela foi levada às pressas para a Unidade de Terapia Intensiva, com falta de ar e uma saturação de oxigênio abaixo de 50%. No mesmo dia, ela foi entubada.

“Tentaram me extubar duas vezes e não conseguiram. Eu estava à base de noradrenalina, porque minha pressão estava muito baixa. Os médicos decidiram fazer uma traqueostomia, mas tentaram remover o tubo pela terceira vez, e conseguiram. Daí, saí da UTI e fui para o quarto. Precisei de reabilitação, para reaprender a comer, a falar e, principalmente, a andar. Ainda hoje sinto os efeitos pós-Covid, com muita tremedeira”, disse.

Marly morreu no dia 20 de junho, depois de 33 dias internada. José Irinaldo, no dia 4 de julho, após 60 dias de hospital. Para Wedja, além de conviver com a falta dos pais, com quem ela morava, agora, o mais difícil é tentar retomar a própria vida, em meio à devastação deixada pela pandemia e pelos efeitos da Covid-19 no próprio corpo.

“Todos os médicos diziam para mainha, quando eu estava entubada, que ela acreditasse em um milagre para eu sair daquela situação. Se Deus me deu o milagre da vida, permitiu que eu ficasse aqui, era para eu aproveitá-la. Quero voltar a trabalhar, até para me ocupar mais, sair da rotina de acordar e ficar em casa. Meu cantinho é aqui. Vou tocar a vida, trabalhar e começar a viver”, afirmou.

 

 

 

 

G1

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